Hoje ouvi uma frase, dentre muitas que ouço no meu “casulo de trocas” (casulo de trocas = salinha onde faço análise), que me fez refletir sobre muitas coisas. Isso acontece constantemente no processo de análise: você chega com muitos tópicos pra falar, e já no primeiro a conversa toma um rumo inesperado, inexplorado e encantandor muitas vezes. (exatamente como acabou de acontecer aqui: não pretendia começar escrevendo assim, mas, o imprevisível se faz tão previsível… a mudança é tão constante… só nos faz entender que não temos controle de nada mesmo)
Pois bem, voltando ao tópico inicial, a frase foi: “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Pode ser que pra muitas pessoas essa frase seja lugar comum, mas foi a primeira vez que ouvi, e ela preencheu uma explicação boa pra muitas coisas. Nós, inconscientemente sabemos disso. Alguns sabem conscientemente.
Conversando com uma grande amiga, fui me dando conta de como nossa percepção vai mudando ao longo da vida, dos anos, dos meses, dos dias, das horas, dos segundos! Comecei a reparar como os conselhos vão ganhando uma dimensão maior, deixe-me explicar melhor: como nossa visão ganha amplitude e como cada vez mais conseguimos enxergar algumas situações de forma mais clara, ainda que em meio a elas.
Comecei a fazer análise não há muito tempo, mas acredito que eu como discípula, não estava pronta. Hoje, não sei como eu seria sem tudo o que me questionei nesse tempo. E aí está e cerne do texto: nós devemos ir em busca de “estar pronto para”? Acredito que o curso das nossas vidas não seja assim, nós não vivemos em busca de ficarmos prontos para alguma coisa, não conscientemente. A vida nos leva por caminhos, tortuosos ou não, que nos fazem perceber que antes de fazermos a pergunta se estamos prontos ou não, olhamos pra trás e falamos: “mudei”. E se em algum ponto você para e se pergunta se “está pronto para alguma coisa” ou não, é porque você não precisaria sequer fazer a pergunta. A resposta é não. Ou seja, essa é uma pergunta que na essência não existe. Quando se está pronto, você não irá se perguntar. Simplesmente, vai. E é assim que deve ser, a meu ver.
É como quando se pensa: “mas quando vou saber que estou pronta pra ser mãe?” Tempo perdido pensar na resposta… se você se fez a pergunta, não siga. Você não está pronta. Quando se está pronta, você simplesmente sabe que está, quer, sabe que quer, e faz.
Quanto mais se vive, mais se prepara para a chegada do mestre, ou dos mestres. Quanto mais perguntas você se faz, mais estável se torna o indivíduo como indivíduo. Quanto mais se percebe o quão insignificante é a nossa existência, mais nos conectamos com o universo e toda a energia que se move. Tem dias que parecem um grande nada dentro de mim, eu olho pros carros na rua, olho pras pessoas de terno indo almoçar com seus crachás de pertencer, olho pro entregador do mercado, olho pro pipoqueiro… e… n-a-d-a… e aí, olho pro céu… e sinto a pequenez de tudo isso aqui… e esse sentimento é tão confortante, tão aliviante, tão bom pra nos dar força pra voltar às nossas pequenas vidas…
Tudo isso me remete à palavra espiritualidade. O tema espiritualidade me remete a um livro que li há algum tempo, muito bacana, chamado “Qual é a tua obra?”. O autor é Mário Sérgio Cortella, filósofo. Vi uma palestra com ele e fiquei encantada. Adoro ver uma palestra e perceber como se dá a interação do público com o palestrante, adoro perceber a comunicação corporal, principalmente quando o palestrante parece ter o dom de conduzir com maestria. E a palestra dele foi assim. Fiquei fissurada do começo ao fim. Conclusão óbvia? Saí de lá e comprei o livro…rs… Ok, ok. Impulso. Mas o outro post que escrevi já me justifica sobre esse assunto…rs…
No livro, ele diz:
“O desejo por espiritualidade é um sinal de descontentamento muito grande com o rumo que muitas situações estão tomando e, por isso, é uma grande queixa. E a espiritualidade vem à tona quando você precisa refletir sobre si mesmo; alias, a espiritualidade é precedida pela angústia. De maneira geral, a angústia é um sentimento sem objeto. Quando você fica triste, é por alguma coisa. Quando você está alegre, é por algum motivo. A angústia se sente e não identifica o objeto. Você se levanta e não sei o que está acontecendo, estou com uma coisa, um aperto aqui no peito. É uma sensação de vazio interior.
Martin Heidegger, grande filósofo alemão do século XX, dizia que a angústia é a sensação do nada. E ela é positiva num ponto, pois o nada é a possibilidade plena. Quando se pode sentir o nada, todas as opções se apresentam e todos os horizontes são possíveis.”
Lendo isso, dá pra sentir quase uma paz por estarmos angustiados. Mas é isso mesmo, deve-se ser capaz de se conhecer a tal ponto, que a angústia se torne um sentimento positivo, e o que temos que saber é ter paciência pra esperar que ela passe e deixe apenas seus frutos.
Osho diz: "a espiritualidade é uma busca egoísta, uma tentativa de encontrar o significado do eu, do prazer consigo mesmo" (do livro "Uma farmácia para a alma")
Incrível como amadurecemos quando nos colocamos à disposição da vida. Sem controle. “Welcome changes, have a sit. Wanna a beer?”. Depois de tanto pensar em milhões de coisas, concluí de forma prática o que, pra mim (que fique bem claro que só pra mim), é de fato se conhecer. Uma pessoa que se conhece pra mim, é alguém que encontra integridade entre o que pensa, o que sente, o que fala e o que faz. Se uma dessas 4 esferas não condiz com as demais, o discípulo ainda não está pronto para mestre. Essa foi uma forma prática que encontrei (provavelmente os estudantes de psicologia têm essa aula no primeiro dia de faculdade…rs… e eu levei alguns anos pra chegar a essa conclusão…rs) de trazer a teoria para a prática, coisa que fiz e faço a minha vida toda. Pensei comigo: quando falo algo que não penso de fato, só pra colocar fim a uma discussão, ou para não alongar uma conversa, ou para não chatear a outra pessoa, ou por qualquer motivo, estou sendo EU? Não. Posso dizer que me conheço? Não. Não posso… porque se eu me conhecesse suficiente, saberia que essa não é a melhor solução pra mim. Não dizer o que eu realmente penso vai contra o que penso que sou. E quando faço alguma coisa simplesmente porque a sociedade exige que se faça assim? Me conheço? Não. Se me conhecesse saberia que eu, enquanto indivíduo, não estaria fazendo aquilo. Posso optar por fazer algo contra a minha vontade, por alguma conveniência ou porque as circunstâncias exigiram assim? Sim, mas é preciso encarar a verdade e saber que a sua essência não faria assim. E assumir portanto todas as consequências que virão, muito possivelmente, a longo prazo. E quando não mostro ou falo o que sinto? Esse é um dos piores males, porque vai me desequilibrar emocionalmente. Já tive essa experiência e definitivamente não faz bem...
E quando o que penso que sou vai totalmente de encontro ao que nos foi ensinado e ao que a sociedade espera? Aí meu amigo, rs, não se esqueça de ser gentil com os outros, pois os obstáculos serão muitos… (fui bastante eufêmica, porque o que ia escrever era: “aí meu amigo, você tá fudido…rs) Quando se chega nesse ponto na vida, é quando se toma consciência do que você É. Como disse Clarice, “eu É”. (eu tento mas Clarice me persegue)
Poucos serão aqueles capazes de te aceitar, de te compreender, de estar ao seu lado, até de simplesmente, conversar. Nesse ponto, é exatamente nesse ponto, que você se torna uma pessoa corajosa. Mas coragem é assunto pra outro tópico…
A mudança é tão constante que já mudei, do começo do texto pra cá.
Esse texto seria esse som:
http://www.youtube.com/watch?v=3JfeA7eypQE&feature=related
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