Você se conhece?
Conhece alguém que se conhece?
Reconhece alguém que se conhece?
Se reconhece?
O que é se conhecer?
Acho que esse texto vai fazer mais sentido para quem já se fez alguma dessas perguntas, caso contrario, pode parecer uma grande loucura, ou a melhor das hipóteses: pode fazer surgir a pergunta.
Conversando com uma grande amiga, em um dos nossos papos tão inquitetantes quanto “serenantes”, ela me perguntou: “Mas Bia, você se lembra o que te fez começar esse processo em você?” Infelizmente, minha memória doriesca não me permite achar essa resposta, mas, tenho um caminho! O texto pode parecer grande, mas muitas partes são trechos dos livros que me ajudaram a rumar…
Por algum motivo, sindo a necessidade de comprar alguns livros, ainda que saiba que não os lerei nos próximos meses, quem sabe anos. Mas, entendi que quando um livro me desperta, devo comprá-lo. Ponto. Não é ponto pacífico de discussão.
Hoje, 23 de Julho de 2010, sei que minha intuição é muito mais inteligente do que minha razão, infinitamente. Pra cada pergunta que me faço hoje, geralmente encontro uma boa resposta em algum livro da minha prateleira. E penso: “obrigada intuição por me ter feito comprar esse livro, mesmo diante de toda dúvida se valeria mais a pena gastar R$120 nele ou numa linda blusa da Maria Filó” (todos nós precisamos de coisas belas de vez em quando gente, sem hipocrisias…)
E foi assim que fui construindo aos poucos a minha (pequena ainda) biblioteca, cheia de novos insights criativos e saciantes.
Posso dizer que minha grande musa inspiradora, foi sem dúvida alguma, Clarice Lispector. E me entristece demais não lembrar como foi esse encontro… quando algo me marca, não há jeito de me fazer esquecer quem me recomendou. Se uma banda entra na minha vida, sei exatamente quem me trouxe. Se um restaurante me apetece, sei de onde veio a dica. E Clarice infelizmente me veio de alguma forma não lembrada… vai ver que veio por mim mesma… o que seria bem mais compreensível vindo de mim… rs
Mas sei ao menos o primeiro livro que abriu meu mundo: “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”. Tenho vontade de chorar quando penso que meu primeiro livro “passaporte”, foi esse. Mas chorar de emoção, de preenchimento e de espanto com tamanha afinidade, não entre mim e o livro, mas entre meu momento e o livro.
Não preciso ir muito longe pra explicar o que se passou. A nota do livro é: “Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu.”
Sem mais delongas, trechos imperdíveis do livro:
“Lóri se perfumava e essa era uma das suas imitações do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida – com o perfume, de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como humus, como se a cabeça deitada, esmagasse humus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lóri perfumar-se era um ato secreto e quase religioso.”
“sentiu como sua condição era pequena porque um corpo é menor que o pensamento – a ponto de que seria inútil ter mais liberdade: sua condição pequena não a deixaria fazer uso da liberdade. (…) Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. (…) Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser.”
“Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.”
“Mas da lua ela não tinha receio porque era mais lunar que solar e via de olhos bem abertos nas madrugadas tão escuras a lua sinistra no céu. Então ela se banhava toda nos raios lunares, assim como havia os que tomavam banhos de sol. E ficava profundamente límpida.”
“No entanto era o seu pavor de uma possível intimidade de alma com Ulisses o que a deixava irritada com ele. Estaria na verdade lutando contra a sua própria vontade intensa de aproximar-se do impossível de um outro ser humano? (…) Parecia-lhe no entanto que ela própria dificultava a missão de ambos. Porque embora sem saber o que queria, além de um dia vir a dormir com ele, adivinhava que seria algo tão difícil de dar e receber que ele talvez recusasse.”
(meu Deus, vocês já viram alguém escrever sobre algo tão sentimento e alma dessa forma?)
“’Não entender’era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. (…) O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.”
(agora preparem-se, o trecho abaixo é cruel)
“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelho diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. (…) Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso.”
“Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.”
“Seria talvez possível que a um certo ponto da vida o mundo se tornasse óbvio? Tinha medo de perder a vida da surpresa continua se chegasse a esse ponto, e no entanto ele se tornaria uma fonte de paz. Ou não seria paz o que ela queria?”
“Por que é que você olha tão demoradamente cada pessoa?
Não sabia que você estava me observando. Não é por nada que olho: é que eu gusto de ver as pessoas sendo. Estou sendo…”
“Você ainda não se habituou a viver?
Não.
Então é perfeito. Você é a verdadeira mulher para mim. (…) Comigo você falará sua alma toda, mesmo em silêncio. Eu falarei um dia minha alma toda, e nós não nos esgotaremos porque a alma é infinita. E além disso temos dois corpos que nos será um prazer alegre, mudo, profundo.”
(um dos melhores trechos sem dúvida…)
(e a facada final)
“Dependerá de nós chegarmos dificultosamente a ser o que realmente somos. Nós, como todas as pessoas, somos deuses em potencial. Não falo de deuses no sentido divino. Em primeiro lugar devemos seguir a Natureza, não esquecendo os momentos baixo, pois que a Natureza é cíclica, é ritmo, é como coração pulsando. Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos. A solução para esse absurdo que se chama ‘eu existo’, a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista.”
Minha jornada com Clarice estava só começando, e em seguida, escolhi pelo título o que viria a ser minha segunda grande viagem até mim: “Perto do Coração Selvagem”.
“Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo.”
“Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma.”
(por isso deve ser tão bom olhar o céu…)
“Mas onde está o que quero dizer, onde está o que devo dizer? Inspirai-me, eu tenho quase tudo; eu tenho o contorno à espera da essência; é isso? – O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si? Utilizar-se como corpo e alma em proveito do corpo e da alma? Ou transformar sua força em força alheia? Ou esperar que de si mesma nasça, como uma consequência, a solução? Nada posso dizer ainda dentro de mim. Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim."
“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome."
“Na verdade ela sempre for a duas, a que sabia ligeiramente que era e a que era mesmo, profundamente. (…) Porque ela nascera para o essencial, para viver ou morrer. E o intermediario era-lhe o sofrimento. (…) Sobretudo, pensou ainda, compreende a vida porque não é suficientemente inteligente para não compreendê-la.”
“E foi tão corpo que foi puro espírito”
(nossa senhora, eu leio e não me canso de ficar impressionada…)
O processo é louco, milhões de livros me vieram assim, na hora certa. Pretendo continuar esse texto acrescentando outros insights de livros importantes nessa descoberta. Transcrever Clarice agora já foi por si só uma outra grande viagem, pois é sempre tempo de ler com outros olhos.
Boa viagem.
Esse texto é esse som:
http://www.youtube.com/watch?v=OvMMznRpn6g
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